23 de março de 2016

General Carlos Branco. ”O problema está dentro da Europa"

O Major-General Carlos Branco diz, em tom de alerta, que mais do que "lobos solitários", a Europa enfrenta já grupos insurgentes com o apoio de segmentos da população.

“Sem pretender lançar anátemas sobre grupos sociais”, o militar defende, em entrevista à Renascença, que este desenvolvimento tem de ser assumido “sem complexos pela elite política porque só assim se resolve o problema”.

Antigo responsável da Divisão de Cooperação e Segurança da NATO, foi porta-voz da ISAF no Afeganistão tendo uma vasta experiência internacional - ONU, Líbano, Balcãs antes de Dayton – o General Carlos Branco sustenta que o terrorismo não se derrota com “um debate esotérico desligado da realidade”.

“A Europa está em guerra” foi, de novo, uma frase ouvida da elite política europeia depois de Bruxelas. Concorda?

A grande questão é saber com quem estamos em guerra. É importante que as elites europeias identifiquem bem essa entidade. Acho que estamos em guerra. Estamos em várias guerras. Há guerras que são, obviamente, exteriores, mas acho que se começam a definir os contornos de uma guerra interior - uma guerra no interior das nossas fronteiras que emana de cidadãos e de segmentos da população europeia. Não sei se as elites europeias se estavam a referir exactamente ao mesmo. Exige-se que haja uma clarificação sobre a entidade a que nos estamos a referir.

Deduzo da sua resposta ser necessário que os vários países tenham a mesma percepção da ameaça, sem divisão nas elites políticas . É isso?


Isso é fundamental. Mas vejo com muita dificuldade um pensamento comum sobre essa matéria, porque há uma série de variáveis que tornam difícil essa interpretação. Vou ser mais concreto: obviamente que não quero lançar um estigma sobre determinados grupos da população europeia, mas é um facto a radicalização crescente em certos grupos com uma expressão demográfica cada vez mais significativa.

Aliás, o que aconteceu em Bruxelas só é surpresa por ter ocorrido só agora. A surpresa é que grandes segmentos da comunidade muçulmana belga - não toda, mas sobretudo em Bruxelas - estejam radicalizados. Há que perceber que todos estes incidentes que têm tido lugar na Europa - Bruxelas, Paris, e também outros não noticiados - têm uma origem comum. Não têm origem exterior, mas sim em cidadãos europeus que aqui nasceram, cá foram educados e, entretanto, foram radicalizados.

Na lista dos grandes atentados, temos Londres, Madrid, Paris e, agora, Bruxelas. O que falhou, consecutivamente, na percepção da ameaça?


Falhamos. Mas estamos a falhar há muito tempo. A questão tem muito a ver com a forma como foi feita a integração de determinados grupos nas nossas sociedades abertas. É esse o cerne da questão. A não-integração desses grupos é uma das causas directas do fenómeno que estamos a viver. Repito: levanto esta questão não a lançar estigmas sobre ninguém, mas estes factos terão de ser avaliados quando se procurar as causas dos problemas e, não menos importante, as soluções para os problemas.

Há barreiras ideológicas nas elites europeias a concorrer para a falta de eficácia no combate ao problema?

A questão encerra já a resposta. Há, de facto, barreiras. Chama-lhe “ideológicas”. Não me repugna a utilização da palavra, mas são barreiras que decorrem do “politicamente correcto” e que impedem a discussão da verdadeira dimensão dos problemas. Nesta questão da radicalização de segmentos importantes da população muçulmana, é importante apurar as causas. O fenómeno da radicalização assumiu já uma dimensão tal que terá de ser considerado sem que as elites políticas possam fazer vista grossa.

Por exemplo, em França uma sondagem tendo como alvo a população muçulmana, feita em Maio de 2015, apresentou dados preocupantes. Uma parte significativa de uma faixa etária consultada, jovens dos 18 aos 25 anos, via com bons olhos as acções do DAESH (ndr: terroristas do autodenominado estado islâmico). Aqui reside o problema. Não passa por exageros nas interpretações das acções de repressão.

A palavra “guerra” tem de ser medida com cuidado para não despertar reacções extremas xenófobas por parte da população, mas há um problema e esse problema tem de ser resolvido na sua origem.

Não vale a pena estarmos com a repetição "ad nauseam" de slogans e clichés, como dizer que se tem de resolver a questão fora da Europa, porque o grande problema está cá dentro, o problema não está lá fora. É isto que as elites europeias têm de compreender, aliás acho que já compreenderam, não querem é verbalizar.

E como se resolve? Desde logo exigindo maior grau de envolvimento dos líderes comunitários na detecção e prevenção de comportamentos desviantes?

A pergunta integra parte da resposta. É evidente que não há uma só solução. Há várias soluções e muitas não são de curto prazo. As de curto-prazo passam pelo que se está a fazer do ponto de vista repressivo, de actuação directa sobre elementos desviantes.

Mas uma questão fundamental é envolver neste processo os líderes destas comunidades. O envolvimento não passa só pelos líderes religiosos, mas sim de outras origens, porque estes grupos têm diferentes organizações e composições. Esse é um mecanismo de actuação mais há mais.

Outro é trazer para a equação a inclusão social, sendo certo que não se resolve de hoje para amanhã. Lembro os movimentos de imigração sobretudo na década de 60 num período de grande expansão económica. Milhares de pessoas vieram para a Europa que, entretanto, viu o crescimento abrandar, sendo mais difícil integrar estes segmentos socialmente mais frágeis.

Mas também temos o Médio Oriente a desencadear um efeito de desestabilização de dinâmicas sociais e políticas da própria Europa. A crise migratória é ‘o’ exemplo?


Temos de abordar o problema a partir de duas grelhas diferentes de análise. Desde logo distinguir a migração económica que não se pode confundir com refugiados de guerra. Opto pela questão dos refugiados porque está mais relacionada com os problemas actuais do Médio Oriente, em particular, na Síria.

É evidente que a reacção da Europa não está a ser homogénea face a um problema que afecta distintos países de forma diferente. Esta é a razão central da crise que se vive. Mas há outra causa: a questão da liderança. Aqui quando falo de Europa falo do Serviço Europeu para a Acção Externa (SEAE) (ndr: com funções de condução de política externa e de segurança europeia) de quem se esperava uma maior capacidade de mobilização.

É um facto que o SEAE está desaparecido, não tem estado presente nestes grandes debates. Mas não é caso único. A ausência da Alta Representante (NDR: Federica Mogherini) tem-se registado noutros momentos igualmente desafiadores da política externa europeia.

Exemplo?

O caso da Ucrânia em que a Alta Representante não teve uma atitude assertiva e criou espaço para que o problema tivesse de ser gerido por um directório de país em vez de ser dirimido nas instâncias europeias.

Esta Europa falha também por omissão no Médio Oriente?


Não há propriamente “uma Europa”. A Europa é, cada vez mais, uma expressão demográfica do que outra coisa. Nessas matérias há opiniões muito divergentes entre os diferentes países membros da União. Há países com leituras diametralmente opostas de outros parceiros. Não há um interesse comum. A ausência de objectivos partilhados agrava a dificuldade de unir esforços para debelar desafios.

Essa falta faz-se sentir na eficácia do âmbito operativo. Por exemplo, neste caso, a polícia belga poderia ter feito mais?

É muito difícil responder a essa questão. Penso que muito poucas pessoas se poderão pronunciar com rigor sobre a matéria. É extremamente difícil poder controlar este tipo de actos. O adversário tem a iniciativa e trabalha na clandestinidade.

Não tenho informação para fazer uma avaliação da qualidade da repetição da coordenação dos serviços de segurança. É fundamental que haja essa coordenação. Mas a questão aqui radica na essência de determinados actos que são completamente impossíveis de prever. Esse será o grande desafio das nossas sociedades. Vamos ter de lidar com este problema.

No horizonte imediato, temos uma mega manifestação desportiva, o Europeu de futebol, em França, no Verão. A sua eventual suspensão seria uma derrota face à ameaça terrorista?

Não realizar o Europeu de futebol seria claramente ceder ao medo, ceder aos objectivos dos terroristas. É exactamente isso que eles pretendem. Chama-lhe terrorista, mas acho estar na altura do debate se alargar e aludir a “acções terroristas”, será mais correcto e mais esclarecedor.

Nesta altura, estes grupos já não são só terroristas. São grupos insurgentes, adquirindo uma nova qualidade. São grupos com o apoio da população. O segmento da população que é potencialmente o seu santuário já tem uma dimensão apreciável.

Por exemplo, o diário Público deu uma notícia interessante, a propósito deste elemento detido há dias na Bélgica [Salah Abdeslam], revelando que contou com o apoio de vizinhos, teve a ajuda da população. Ou seja, não são só actos terroristas isolados ou por grupos sem ligações à população. Este caso concreto denuncia o envolvimento de uma comunidade. Mais uma vez, sem querer lançar anátemas sobre grupos sociais, temos de perceber que há uma nova qualidade neste tipo de acções.

Esse novo elemento tem de ser assumido, sem complexos, sem preconceitos, pelos responsáveis políticos porque só assim se consegue resolver o problema. Caso contrário, estaremos permanentemente a enterrar a cabeça na areia e com discursos que não abordam verdadeiramente o cerne na questão. Este dado tem de ser necessariamente introduzido na agenda e na equação

Os Estados Unidos assumiram um conjunto de medidas de excepção no pós-11 Setembro que têm sido criticadas, mas também terão evitado atentados. Nesta altura, vive-se o debate Apple/Justiça sobre acesso a dados de comunicações. Há lições a reter para a Europa?

A Europa tem de extrair ensinamentos dos Estados Unidos. Há lições a ter em conta para o bom e para o mau. Devemos evitar os erros e procurar beneficiar das conclusões positivas. Há uma fronteira ténue – um limbo - entre liberdade individual e segurança colectiva. Sei ser difícil de dirimir. Tendo a privilegiar a liberdade individual, mas o debate tem de ser aprofundado.

É chegado o momento dos europeus admitirem concessões na liberdade individual?

É chegado o momento do debate se aprofundar na Europa. É o dado indiscutível. O que vai sair desse debate, envolvendo os cidadãos e o que os especialistas perceberam ser o mais adequado, será o que se deverá ter em conta. As soluções europeias não têm necessariamente de ser as mesmas dos Estados Unidos.

O ‘filtro’ europeu para viagens ou comunicações pessoais, por exemplo, deve ser mais fino que o ‘filtro’ norte-americano?

O nosso filtro tem de se basear em diferentes paradigmas. Não contesto que a questão das comunicações deve ser avaliada, mas voltamos ao início da entrevista: perceber a origem do problema. Só adoptando as medidas adequadas para resolver o problema é que se dará o passo em frente. Não dando o passo em frente estaremos sempre a receitar medicamentos que não debelam a doença. A doença continua a alastrar-se, aumenta-se a dose de medicamentos não adequada e não se resolve problema algum. Por isso é fundamental travar este debate porque os problemas na Europa não são os mesmos nos Estados Unidos. As soluções não podem ser as mesmas. As causas – de ordem interna europeia - têm se ser discutidas. Algumas decorrem da falta de integração de certos grupos sociais. As soluções devem ser pensadas a partir desta base.

Não se pode ter um debate esotérico desligado da realidade. Tem de resultar da observação social, da análise de como estes grupos se interrelacionam e como agem com o conjunto da sociedade.

Para além das elites religiosas com quem importa ter uma relação privilegiada, há outro tipo de elites nesses grupos nomeadamente de natureza económica. Essas elites económicas desses grupos sociais devem também ser convocadas para esta batalha. Temos de aprofundar a análise e saber como resolver a questão. Estar a discutir restrições às liberdades individuais e ter por fazer todo o debate sobre as origens da ameaça é comprometer completamente qualquer possibilidade de se dar uma resposta eficaz. (RR)