20 de setembro de 2014

Encerramento de quartéis mata cidades

Foi uma exigência das novas obrigações militares, que implicam mais formação, mais treino e mais competências, mas o fim do serviço militar obrigatório, há dez anos, apresenta uma conta pesada de prejuízos para cidades que viram os quartéis fechar, diminuir a actividade comercial, o movimento de pessoas e até a segurança.

A mudança continua polémica, inclusive por motivos estritamente militares. O mais importante para as populações é, porém, a perda de actividade comercial, social e cultural ligada à incorporação de milhares de mancebos chamados ao serviço e que circulavam pelo País.

Os sociólogos apontam prejuízos em termos de miscigenação social, partilha de valores entre jovens de diversas regiões do País, diferentes níveis de instrução e de várias classes sociais.

Inquéritos feitos pela agência Lusa revelam que os militares tinham forte influência social e cultural. Na Figueira da Foz, onde houve presença militar de 1897 até 2004, o quartel promoveu encontros de arte. Segundo o artista plástico Mário Silva, "punham jovens a pintar e os quadros ficavam no quartel".

O fim do serviço obrigatório reduziu a presença de jovens nas forças armadas.

Em dez anos, o Exército incorporou 29 753 dos 78 500 candidatos. Na Marinha, houve 17 500 a concorrer e 34 500 na Força Aérea. Em média, só 30% foram contratados pelos diferentes ramos.

Militares davam mais vida à Figueira da Foz

O fim de mais de 100 anos de presença do Exército na Figueira da Foz deixou "a cidade economicamente deprimida", observa Joaquim de Sousa, antigo presidente da câmara, que destaca a importância de "incorporações de dois mil recrutas além dos quadros permanentes". A Escola Prática do Serviço de Transportes (EPST), fechada em 2004, acolheu depois o Centro de Formação da GNR. Investiu-se na preservação do edifício, mas ainda assim os militares davam mais vida à cidade.

Elvas adormece com o fecho de Infantaria 8

"Em qualquer tasca havia soldados a petiscar, a fazer vida", recorda o elvense Henrique Borrego, para quem o fecho do Regimento de Infantaria 8, em 2007, prejudicou muito o comércio da cidade. Maria Luísa Godinho queixa-se que "Elvas morreu em tudo". "Com a tropa havia mais segurança. Os roubos aumentaram", acusa.

Santarém passa escola a tribunal

A Escola Prática de Cavalaria de onde, na madrugada de 25 de Abril de 1974, saiu a coluna do capitão Salgueiro Maia, protagonista no derrube da ditadura, foi encerrada em 2007, após o fim do serviço militar obrigatório. Ao abandono, foi vandalizada, mas a degradação inverteu-se com compra dos edifícios, por 16 milhões de euros, pelo executivo camarário de Moita Flores. A instalação dos tribunais e serviços da autarquia deu nova vida à zona, com a afluência de muitas pessoas. (Correio da Manhã)