22 de janeiro de 2018

A vida da unidade de elite da Marinha

Seis horas a nadar, de noite e com equipamento de combate completo, para dar toda a volta ao pontão do porto de Sines. Os militares do Destacamento de Acções Especiais (DAE) fazem uma acção de infiltração e sabotagem a uma instalação "crítica". É treino. "Mas realista e nada facilitado", conta o comandante do grupo de elite. A luta contra o mar, o peso do equipamento (acima de 25 quilos) e o cansaço têm apenas dois aliados: a noite, que lhes dá cobertura, e a alta preparação destes militares da Marinha - homens cujas missões ninguém ouve falar, mas que estão sempre de prevenção para, em poucas horas, serem enviados para qualquer ponto do Mundo. 

"Crítico" é das palavras que mais se ouve. Há alvos "críticos", missões "críticas", técnicas e procedimentos "críticos", que não são partilhados sequer com as unidades aliadas mais amigas. E há o "classificado", como quem diz secreto ou discreto. O DAE não é uma unidade secreta. Longe disso. Mas das suas missões pouco se sabe, apenas aquilo que eles querem. "Em relação a missões, mormente o carácter classificado, é do conhecimento público a participação em operações em cooperação com a PJ, no âmbito do combate ao narcotráfico", explica à ‘Domingo’ o comandante do DAE. A sua identidade e a dos restantes militares da unidade não pode ser divulgada. Nem o número de elementos. Atacam crime organizado e terrorismo. Têm de se proteger e às famílias. Reserva não é palavra vã. 

Quem está à espera de militares embrutecidos engana-se. Do marinheiro ao comandante, são modestos, simples, disponíveis e inteligentes. Muitos têm formação superior e são campeões nos desportos das horas livres. Nas missões, operam complexos sistemas de comunicação e recolha de informação. Na base não se comportam como estando acima dos restantes Fuzileiros. Nos treinos no exterior vira-se do avesso as t-shirts com nome e unidade. Peça de roupa que lhes custou dois anos, e muitas dores de corpo, a merecer e conquistar, no Curso de Operações Especiais da Marinha (COEMAR). "O DAE é composto por Fuzileiros especialmente seleccionados, formados e treinados. Somos todos mergulhadores de combate e para-quedistas militares", diz o comandante. Após os dois anos à prova, apenas 10% ficam "aptos a cumprir missões reais como elementos do DAE". É então que começa a maior responsabilidade e o treino mais específico. "Temos um completo e abrangente plano de formação para nos mantermos aptos e qualificados nos diversos cenários (por exemplo mergulho e tiro sniper). É uma actividade complexa e completa a que nem os comandantes escapam", conta. 

Há pessoal especializado em funções e sistemas de armas, mas todos operaram a generalidade dos meios. "Contamos uns com os outros. Sempre", como demonstra o treino cruzado em que disparam munições reais no intervalo de meio metro entre camaradas. Um exercício para evitar danos colaterais em missões reais. Essas são "de acção directa, para libertar alguém ou destruir ou capturar equipamento-chave, reconhecimento para obter informação de grande valor ou risco, e assistência militar. Missões concretas não posso discutir", diz o comandante. No apoio à PJ, o ano passado foram feitas quatro missões com 11 toneladas de droga apreendida. A forma como porta-contentores, com dezenas de metros de altura, são abordados e escalados à noite, em alto-mar, desde lanchas, é "informação crítica". Logo, "classificada". Sabe-se que o DAE "usa e está treinado para todo o espectro de meios de transporte aquáticos, terrestres e aéreos. Pode ser por submarino, navio de superfície, projectado de ‘heli’ ou para-quedas para a superfície do mar e depois mergulhar para o alvo". A ‘Domingo’ acompanhou um dia de treinos de qualificação. Vimos acções de mergulho de combate, com percurso subaquático e reconhecimento de uma praia, no distrito de Setúbal, e de combate próximo. 

O ‘monte alentejano’ 

Na base de Fuzileiros, no Alfeite, três pequenos e discretos edifícios albergam esta unidade de elite. Chamam-lhe o ‘monte alentejano’, e é onde fazem treino físico, de luta e onde convivem nos raros momentos parados - há uma churrasqueira para o efeito. O DAE não tem sempre uma equipa na base. Mas todos estão em "prevenção permanente", com o telemóvel sempre ligado. A qualquer altura pode chegar a chamada que os levará para o outro lado do Mundo. A rotina afecta as famílias. Não há folgas junto aos sítios de treino, "para não saturar". Férias em aldeias sem rede de telemóvel são uma preocupação. Já foi necessário encaminhar as chamadas para um posto da GNR, que tinha a missão de correr a alertar caso o telefone tocasse. "Somos na unidade um pouco a família uns dos outros", consideram. Passam a maior parte das horas juntos e só podem falar de trabalho uns com os outros. "As nossas famílias vivem o nosso desafio. A família próxima pode saber que estamos no DAE. Mas os pormenores da actividade operacional não são partilhados, e até já não perguntam." (Correio da Manhã)