8 de agosto de 2014

Guerra sonhada e guerra vivida: as contradições do intervencionismo português

Desfile do CEP antes do embarque para França na Praça do Comércio, em Lisboa JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA
A participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial saldou-se por um fracasso militar e diplomático. Teve consequências sérias para o regime republicano, que nunca se recompôs dos choques sofridos entre 1914 e 1918. Essa participação foi desejada por uma corrente intervencionista, que se revelou impossível de travar, dada a sua força dentro do sistema político republicano.

Vale a pena, por isso, determo-nos um pouco sobre essa mesma corrente, os seus princípios e os seus objectivos, para melhor entendermos as causas dos insucessos portugueses e as suas consequências. Vale a pena também lembrar que o intervencionismo português não foi um fenómeno isolado: em vários outros países europeus – Itália, Grécia, Roménia – a intervenção na guerra foi vista como o cortar do nó górdio, que permitiria resolver várias questões domésticas e internacionais.

A frente interna

Parte importante do projecto intervencionista prendia-se ao fortalecimento e afirmação definitiva do regime republicano. Queriam acreditar os intervencionistas – políticos, militares, intelectuais, artistas – que o esforço comum de uma guerra travada em nome de ideais democráticos e mesmo humanitários (a guerra contra o militarismo) conduziria a um novo entendimento entre todos, ou quase todos, os portugueses. Um sacrifício comum, recompensado por uma Europa grata e reconhecida ao jovem regime, que fizera renascer o Portugal nobre e altivo do passado: eis o passaporte para a aceitação da República por todos os portugueses.

A ideia de que a participação portuguesa no conflito traria a pacificação da família portuguesa, ou pelo menos da família republicana, não sobreviveu aos primeiros meses da guerra. A União Sagrada, longe de representar uma verdadeira fusão de todas as forças políticas do país, saldou-se por uma coligação entre os democráticos de Afonso Costa e os evolucionistas de António José de Almeida. Nem unionistas, nem católicos, nem socialistas, nem, claro está, monárquicos, entraram no Governo. Tendo em conta a rivalidade entre democráticos e evolucionistas, o passo dado foi considerável. Foi, porém, insuficiente, tendo em conta os efeitos políticos, económicos e sociais da guerra. A máquina administrativa, cuja função principal era obter os resultados eleitorais que mais convinham a Lisboa, viu-se completamente ultrapassada pelas necessidades da mobilização militar e económica.

A igualdade de sacrifício entre todos os portugueses (obrigatoriedade de serviço militar, igual acesso a bens de primeira necessidade) não passou de uma miragem. Lentamente agravou-se a falta de mantimentos e de carvão mas os navios alemães, apresados, segundo Afonso Costa, para acudir à economia nacional, foram postos à disposição da Grã-Bretanha. Questões como a amnistia por crimes políticos e sociais, a introdução da pena de morte no código militar e o papel do Conselho Económico Nacional, no qual se reuniriam o Governo e as ‘forças vivas’ do país, vieram envenenar o relacionamento entre os grupos parlamentares dos dois partidos governamentais. Mas os golpes decisivos contra a União Sagrada seriam desferidos pelos inimigos da classe política republicana, alguns bem conhecidos, outros que emergiram das sombras graças à guerra.

Não era segredo para ninguém que grande parte do Exército era contra o envio de tropas portuguesas para a Frente Ocidental. O sentimento de revolta que se foi apoderando de muitos oficiais ao longo de 1916 foi explorado pelo ‘herói da Rotunda’, Machado Santos, que tinha velhas contas a ajustar com os partidos políticos. Eram os partidos, segundo este oficial da Armada, os responsáveis pelo caos político no qual o regime que ajudara a fundar se encontrava mergulhado.

Machado Santos fora preso após a revolta de 14 de Maio de 1915, e desde a sua libertação conspirara contra a União Sagrada a tempo inteiro. A 13 de Dezembro de 1916 passou ao ataque, mas muitos dos que lhe garantiram o seu apoio acabaram por nada fazer, sendo a revolta facilmente dominada pelas forças leais ao Governo. Mas ficou o aviso e assim largas dezenas de oficiais foram presos. Os efeitos militares e políticos não se fizeram esperar. No mês seguinte, oficiais de várias unidades recusaram-se a partir à frente dos seus homens para Lisboa, onde embarcariam rumo a França. Para espanto de muitos observadores, sobretudo nos exércitos aliados, estes oficiais cumpriram o seu castigo a bordo dos navios que os levaram até Brest, sendo depois devolvidos às suas unidades. As medidas tomadas para punir os responsáveis do 13 de Dezembro, mais severas, dividiram o partido evolucionista, tendo alguns deputados abandonado António José de Almeida para reconstituir o velho ‘bloco parlamentar’ com os unionistas de Brito Camacho.

Em Abril de 1917 caiu o Governo de António José de Almeida, no Parlamento, após um episódio ainda envolto em mistério, um voto de confiança que nunca devia ter ocorrido. Seguiu-se-lhe o terceiro (e último) Governo de Afonso Costa, ainda sob a égide da União Sagrada, mas agora composto apenas de ministros democráticos. Tal executivo não conseguiu mobilizar o patriotismo de todos os portugueses num momento de emergência nacional – emergência essa que não teimava em não passar: em Maio, motins populares em Lisboa com suspensão de garantias constitucionais; em Julho, greve da construção civil com nova suspensão de garantias (e com o parlamento reunido em sessão secreta); em Agosto, greve na Companhia das Águas de Lisboa; em Setembro, greve dos trabalhadores dos correios (um bastião republicano), à qual o Governo responde com a mobilização militar da corporação, sendo a greve por isso mesmo equacionada a deserção. A resposta foi imediata: greve geral decretada pela União Operária Nacional. Por todo o país, distúrbios e revoltas ocasionados pela falta de alimentos. Acossado por todos os lados, Afonso Costa começou a ser contestado pelo seu próprio partido. Julgou o líder democrático ter resolvido os problemas económicos mais prementes do país em Paris, em finais de Novembro/início de Dezembro, durante uma conferência aliada; mas o seu regresso a Lisboa foi interrompido pelo golpe de Sidónio Pais, apoiado por tropas prestes a partir para França.

A guerra em África

Uma segunda dimensão do intervencionismo português prendeu-se com a defesa do império colonial, cuja partilha entre pela Alemanha e a Grã-Bretanha tinha sido discutida já durante o regime republicano. A defesa activa das colónias portuguesas e a participação na conquista das colónias alemãs era vistas como expedientes para calar definitivamente as críticas que choviam sobre a administração colonial portuguesa, tida como brutal e ineficiente.

É nas campanhas de África que a falta de discernimento do intervencionismo português mais se faz notar: derrota após derrota, desastre após desastre, até ao descrédito total entre os aliados. O Exército parece não ter reflectido sobre as razões da derrota de Naulila, no sul de Angola, em finais de 1914, muito antes da declaração de guerra alemã. E enquanto outras potências coloniais mobilizavam o império para melhor combater na Europa, Portugal viu-se forçado a mobilizar a metrópole para defender as colónias, não só dos alemães como ainda das populações locais, que viram na guerra a conjuntura ideal para se subtrair à soberania portuguesa, nalguns casos bem recente.

Assim sendo, expedições foram enviadas umas após as outras para Moçambique, sem se obter qualquer resultado decisivo no combate aos alemães. A derrota de Nevala, em 1916, após um curto cerco à posição ocupada pelos portugueses, pôs cobro à única invasão de território alemão por forças portuguesas. Seguiu-se-lhe um longo período em que o Exército assumiu uma posição defensiva ao longo do rio Rovuma, esforçando-se, porém, por restaurar a ordem no resto de Moçambique, ameaçado por seríssimas revoltas indígenas – começando pela do Barué – e por reconhecimentos em força alemães.

O desgaste de homens e oficiais foi tremendo e a escala das baixas difícil de compreender numa força habituada a combater em Moçambique. A esmagadora maioria das mortes sofridas pelo Exército durante a Grande Guerra é-o em Moçambique, revelando-se a doença um inimigo muito mais mortífero do que o alemão.

Em Novembro de 1917, ainda sob a vigência da União Sagrada, novo desaire, mais perigoso do que Nevala: os restos do exército alemão, comandados por von Lettow-Vorbeck e acossados por todos os lados, atravessam o Rovuma e caem sobre a posição portuguesa de Negomano, que capturam sem grande esforço, encontrando as armas e munições e os mantimentos de que necessitam desesperadamente.

Moçambique proporcionará a von Lettow-Vorbeck um novo campo de batalha, onde ficará até Setembro do ano seguinte, vivendo à custa da população local e das guarnições portuguesas. A frustração das forças aliadas na colónia portuguesa é intensa. Adensam-se as nuvens contra o domínio colonial português em face desta fraca prestação militar e da ideia generalizada de que toda a campanha de 1918 teria sido evitada se os portugueses tivessem defendido com sucesso a linha do Rovuma.

O CEP

A defesa do solo francês pelo exército português fez sempre parte do projecto intervencionista, estreitando os laços entre as duas repúblicas. Portugal rejeitou sempre sugestões de que o seu exército fosse enviado para a frente de Salónica, ou para o Médio Oriente: só a Frente Ocidental interessava, vincando a natureza ideológica da participação portuguesa na Grande Guerra.

O Corpo Expedicionário Português (CEP) nasce da Divisão de Instrução pensada por Norton de Matos após a revolta de 14 de Maio de 1915, que abriu as portas ao poder aos democráticos. Comandada pelo General Tamagnini d’Abreu, tinha por missão permitir ao Governo dispor de uma força que lhe permitisse intervir no conflito europeu. Embora há muito projectada, só depois da declaração de guerra alemã começaram os trabalhos de campo da Divisão, que se prolongaram até ao Verão de 1916.

A transformação da Divisão de Instrução num Corpo Expedicionário acabou por ser aceite por Londres (falaram mais alto as perdas sofridas pelos aliados em Verdun e no Somme do que as dúvidas sobre o real valor da unidade) após um longo compasso de espera. De divisão reforçada, o CEP passou a corpo de exército, tendo Norton de Matos sonhado a certa altura no envio de uma segundo corpo de exército.

Os intervencionistas portugueses, obcecados com a ideia de um sector português na Frente Ocidental, que acabaram por conquistar, nunca se interrogaram quer sobre a razão de ser de tal sector, quer sobre o contributo que Portugal poderia dar na Frente Ocidental, e o seu preço. Verdun e o Somme tinham demonstrado – se tal demonstração fosse ainda necessária – que no espaço de um só dia grandes unidades podiam ser aniquiladas. Porquê então enviar o CEP, que, pelo seu tamanho, pouco poderia contribuir para a vitória aliada, mas que estaria sujeito a todos os perigos?

A vida do CEP é assim a história de um sacrifício feito por oficiais e soldados por razões de cariz político, oficiais e soldados esses que se sentiram desprezados e abandonados à sua sorte. Ainda antes do golpe sidonista o Governo sentia as maiores dificuldades em preencher os quadros do CEP e garantir seu abastecimento; a partir do golpe, a situação agravou-se, mercê do não regresso a França de oficiais em licença em Portugal e do fim do envio de reforços. A batalha do Lys, a 9 de Abril de 1918, é travada por um exército desfalcado, desnorteado e votado pelo comando britânico à saída das trincheiras nesse mesmo dia, de forma a repor alguma ordem nas suas fileiras.

Conclusão: intervencionismo derrotado

Embora Portugal seja contado entre as nações vitoriosas da Primeira Guerra Mundial, a verdade é que o intervencionismo português saiu claramente derrotado da contenda. Em Março de 1919 Afonso Costa substituiu Egas Moniz na presidência da delegação portuguesa à Conferência de Paz. Julgou Costa que as suas credenciais intervencionistas lhe permitiriam uma defesa mais eficaz do interesse nacional do que a esboçada por alguém nomeado por Sidónio Pais. Nada indica, porém, que assim tenha sido.

Portugal manteve as colónias (nenhum país aliado ou neutro perdeu as suas) mas não recebeu um único mandato da Sociedade das Nações (a Bélgica recebeu o Ruanda e o Burundi); as despesas militares não foram incluídas nas reparações a pagar pela Alemanha, como Costa desejava – o que significava que Portugal teria de saldar a sua dívida de guerra para com a Grã-Bretanha, que tinha possibilitado financeiramente o esforço de guerra português; e foi a Espanha (e não Portugal) convidada para integrar o primeiro Conselho Executivo da Sociedade das Nações.

O que a delegação portuguesa realmente pensou do Tratado consta das actas das suas reuniões, recentemente publicadas (Estratégia Portuguesa na Conferência de Paz 1918-1919: As actas da Delegação Portuguesa) por Duarte Ivo Cruz. Um membro da delegação, Jaime Batalha Reis, não se conteve: “Desde Alcácer-Quibir, esta nossa nova vitória foi o nosso maior desastre”.

Afonso Costa passou ao lado do “momento Wilsoniano”, identificado pelo historiador Erez Manela. Pouco se interessou pela criação de uma nova ordem diplomática assente na Sociedade das Nações. O seu desejo era punir a Alemanha de forma a compensar Portugal pelos sacrifícios feitos, reabilitando a política intervencionista à custa da economia alemã. Mas não o conseguiu e a sua autoproclamada vitória moral não convenceu o país. Tentaria ainda justificar a beligerância portuguesa em Abril de 1921, aquando das cerimónias, em Lisboa e na Batalha, relativas ao sepultar dos dois Soldados Desconhecidos, mais uma vez sem grande sucesso.

National University of Ireland, Maynooth (Fonte : Jornal O Público)