22 de março de 2016

Um dia no Centro de Treino de Sobrevivência da Força Aérea

No Centro de Treino de Sobrevivência da Força Aérea, em Penamacor, os pilotos aprendem a sobreviver em cenários de conflito. Saber usar uma boa história pode fazer a diferença

"Não gaguejes...", exclama um dos bandidos, num tom entre o paciente e o irritado, para o piloto da Força Aérea capturado. "Ninguém vem para a República da Malcata com um canivete que nem para capar grilos dá! Onde é que estão as armas?", continua o raptor, enquanto se ouve o som do facalhão a afiar um pau.

A cena passou-se nas traseiras de uma habitação isolada nos montes em redor de Penamacor, há uma semana. Três militares da Força Aérea, cuja aeronave foi abatida, estão reféns de vários bandidos que procuram ganhar uns cobres. "Não tens nada nos bolsos?", pergunta outro salteador, sem se perceber a quem.

"Braços estendidos ao longo do corpo, não quero que te aleijes", diz outro patife, num tom amigável que procura suavizar o tom rude dos parceiros. Só que o primeiro grita de imediato, fazendo sobressaltar os jovens militares com os rostos tapados por capuzes: "Estás assim todo esticado porquê, [palavrão]?Estás a enervar-me... queres ir para o teu país?"

Dentro de casa, onde se inala o cheiro da lenha a crepitar na lareira sob a panela de ferro com água e legumes a ferver, o tenente-coronel Natalino Pereira segue atentamente o que se passa lá fora. Comandante do Centro de Treino de Sobrevivência da Força Aérea (CTSFA), este oficial piloto-aviador explica ao DN a razão de ser dessa unidade: formar e treinar pessoal navegante no uso de técnicas de sobrevivência, recuperação, resistência ao cativeiro e a interrogatórios ou para escapar ao inimigo.

"Ensinamos técnicas para o militar se manter vivo, dar informações erradas e sair com dignidade", refere Natalino Pereira, sem entrar em detalhes classificados de um curso que é ministrado no âmbito da NATO, o comandante do CTSFA - em que sobressai a esquadrilha de Sobrevivência, Evasão, Resistência e Extracção (SERE).

"Se não aplicarem bem as técnicas de sobrevivência e salvamento individual", em especial todo o processo de contacto e encaminhamento das forças amigas enviadas para resgatar os membros das tripulações caídas atrás das linhas inimigas, os envolvidos nessa missão de busca e salvamento em combate "ou não vão lá, ou até os abatem" se considerarem estar a ser enganados, enfatiza Natalino Pereira.

"Têm de dar garantias de que cumprem as regras", insiste o oficial. Camuflagem, construir abrigos e esconderijos, capturar armas, encontrar e preparar comida (secar, fumar, salgar), fazer fogo ou tratar a água são competências que os formandos têm de adquirir para sobreviver em caso de necessidade - como ocorreu há algumas semanas, com os pilotos russos abatidos junto à fronteira entre a Síria e Turquia.

No caso dos interrogatórios, como reféns ou como prisioneiros de guerra, o que importa "é ser um bom actor"- leia-se vendedor de banha da cobra - para construir uma boa história e jogar com o tempo necessário para que os códigos na sua posse sejam alterados. "Não se pretende que um formando diga tudo ou que fique calado, até porque neste caso deixa de ter utilidade para o inimigo...", explica o comandante do CTSFA, sem verbalizar o que pode acontecer à saúde do militar nessa situação.

A gestão do stress por parte dos militares constitui um elemento central dos cursos dados pelo CTSFA, sublinha o seu responsável. "A falta de café, de comida, de bebida e do cigarro", o desgaste físico de terem de andar escondidos e ficar horas no mesmo local, suportar o frio e a chuva, o efeito do jogo polícia bom/polícia mau por parte dos interrogadores em situações de isolamento...

Escusando-se a falar do que se passa nas sessões de interrogatório, tornadas famosas com o uso - pelos EUA contra o terrorismo - da violência física e certas técnicas legalmente proibidas, o responsável do CTSFA diz que "o frio é que dói mais". Ah, andar todo molhado por causa da chuva também "deita muito abaixo", indica.

No quarto e último curso desta temporada, os 17 elementos - incluindo fuzileiros, um militar das operações especiais e agentes da PSP - que cumpriram a componente prática tiveram nota positiva. A formação começou a 29 de Fevereiro, na base aérea do Montijo (parte teórica), e terminou a 15 de Março na base táctica de Penamacor.

Terra de emigração
"Só é pena não estarem cá o tempo todo", diz ao DN António Luís Soares, presidente da Câmara de Penamacor. Sendo uma terra de emigração, o município consegue duplicar a população residente nos meses de verão, incluindo os vizinhos espanhóis que frequentam as piscinas locais. Na época baixa do inverno, porém, são os militares que ali estão entre Novembro e Março - por períodos de duas semanas por mês - a dar vida ao local.

O impacto positivo dessa presença dos militares (menos de uma centena) sente-se a vários níveis, regista o autarca socialista. O mais evidente é o "fluxo económico muito considerável" para o concelho em termos de comércio, alojamento e alimentação. Nos combustíveis então deve corresponder a um euromilhões anual para a bomba de gasolina local.

Com 5200 habitantes (metade com mais de 65 anos) espalhados pelos 560 quilómetros quadrados do concelho, António Luís Soares destaca também o "efeito persuasivo" que a presença dos militares tem entre a população idosa.

"Sei que não é o papel deles, mas de forma indirecta" contribuem - ao circularem dia e noite pelas estradas alcatroadas e nos caminhos de terra da região - para o sentimento de segurança das pessoas, diz António Luís Soares. (DN)